A Maldição das Oliveiras

por mariza lourenço

Quando Dona Leonice Oliveiras de Prates faleceu, após longa e dolorosa enfermidade, sua irmã, Leonora Oliveiras, mudou-se para a casa da finada a fim de cuidar da sobrinha Lidiane, mocinha de treze anos. Sabia-se, contudo, que o zelo ocultava um mal disfarçado desejo de consolar o cunhado, Mário de Prates. Sabia-se mais, que o viúvo, inconsolável, definhava a olhos vistos e chorava o tempo todo. O que não se sabia, entretanto, e aqui, por favor, peço-lhes a mais absoluta discrição, já que com o alheio não se faz pilhéria, é que tamanho desespero não guardava nenhuma relação com a imagem da defunta que, em vida, não passara de uma sombra triste e arredia.

A falta era bem outra, não menos louvável, no entanto. O homem ressentia-se da perda de sua gruta, como ele mesmo acostumara-se a chamar aquilo que a mulher trazia entre as pernas. "Oh, gruta úmida e estreita. Levassem-me tudo, suas pernas, sua alma, seus braços, menos a gruta". "Outra igual, nunca mais". Ocorre que a afirmação, pontuada por reticências, acabou por se transformar em expectativa ante a visão dos quadris balangantes da cunhada Leonora. E assim, ao cabo de seis meses, outra Oliveiras passou a ocupar o leito do viúvo.

Quem não gostou do arranjo foi Lidiane, mas os resmungos da menina não conseguiram fazer frente ao clima de romance que se instalara na casa. De maneira que, iniciado um novo tempo, com ele também chegou a rotina e, assustadoramente, as primeiras modificações na aparência, outrora saudável, de Leonora. Tal e qual Dona Leonice, sua irmã adquiriu uma estranha coloração acinzentada e uma tristeza esquisita. Mário de Prates parecia não notar as mudanças, mais preocupado, talvez, em manter para si as delícias de sua nova gruta, tão acolhedora quanto a anterior. Lidiane tampouco se importava, desde que não lhe fossem perturbadas as descobertas do mundo adolescente.

E foi deste modo que cinco anos se passaram, demasiadamente compridos para quem se transformara em sombra e relativamente agradáveis para o dono da casa que, afinal, não tivera trabalho algum em reencontrar o prazer que julgara perdido. E a vida teria seguido assim, quase normal, quase enfadonha, não fosse por uma certa manhã de julho, véspera do aniversário de dezoito anos de Lidiane. Naquela manhã, a tia, mais cinza do que nunca, irrompeu o quarto da sobrinha, atirou um envelope em seu colo e ordenou que deixasse a casa da família para sempre. E mudasse de nome, se possível. A moça obedeceu, sabe-se lá se movida pelo susto ou vontade de dar adeus àquela vidinha estranha.

No dia seguinte à partida de Lidiane, a qual supunha-se a salvo da fome paterna, sua tia, cuja tez surpreendentemente voltara a colorir-se de rosa, sentou-se em frente ao espelho, tingiu de carmim os lábios finos, escovou os longos cabelos negros e, envolvendo o delicado pescoço com a longa echarpe de seda azul de Leonice, abriu delicadamente os alvos braços e voou em direção ao jardim, florido de hortênsias.

"Outra igual, nunca mais".

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[imagem Pino Daeni]

Ausência...

a sua ausência me estilhaça, me rasga como um raio rasga os céus em noites tempestivas...

e fico assim, como fera enjaulada em pleno cio, sem ter como fugir, como escapar, cercada pelo nada e pelo silêncio, onde só escuto os gemidos da minha fome engolida, porém não saciada.

Despi-me de todos os meus receios, dos meus medos, dos meus pudores, e por três longas noites esperei por você na minha nudez envergonhada e trêmula;

(eu nua de todos meus outros eus, eu nua de máscaras, eu apenas eu, em todas aquelas horas).

enquanto esperava vislumbrei outros vultos, senti-os debaixo das unhas, mas não fui de nenhum...

(que outro olhar não quero. que outra boca meus lábios não beijam. que outro peso meu corpo não sustenta).

o nome que me cala é o seu. é você a sede que me abrasa. é seu o sabor da minha saliva, o gosto que sinto na minha língua.

por três solitárias noites supliquei-lhe em silêncio:

vem! toca-me/ lambe-me/ desgoverna os meus rumos/ desvenda os meus segredos/ despe-me desta casca casulo em que me guardo/ consome tudo o que há em mim para consumir...

mas você não veio e eu continuei deserta.

por três frias noites eu queimei até que virei cinzas.

(e ainda assim restou mais e mais de mim a arder).

e agora
quem irá me soprar?
quem irá me espalhar?

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(imagem Pino Daeni)

Antônio, Santo casamenteiro ou zombeteiro?

Treze de junho, noite fria, e fui atravessada por lembranças doces, coloridas, sonoras e aromáticas; as festas juninas da minha adolescência.

Naquela época frequentava vários “arrasta-pés” , com direito a sanfoneiros, quadrilhas, fogueiras, fogos de artifício, canjica, quentão, pés-de-moleque, pipocas, maçãs do amor, muitos doces e salgados.

Adorava me vestir de caipira, com vestido de chita, cheio de babados, fazer tranças nos cabelos e usar chapéu de palha enfeitado com fitas e flores.

A noite de Santo Antônio, o santo dito casamenteiro, mas que morreu solteiro, para mim era especial, pois me divertia com as simpatias que as mulheres faziam para garantir um amor para a vida inteira...

Aquelas que já estavam noivas, mas com pressa de se casarem, amarravam um fio de seus cabelos ao do amado e depois colocavam os fios entrelaçados aos pés do Santo, para que ele resolvesse o problema e facilitasse o casamento;

Outras, mais afobadas e se sentindo encalhadas, queriam arrumar um namorado, de qualquer idade e aparência, e para isso faziam as maiores torturas com a imagem do Santo. Roubavam e escondiam o Menino Jesus que ele carregava, colocavam-no de cabeça para baixo dentro do caldo de feijão fervendo, dentro de um copo de cachaça ou até dentro do congelador, entre outras maldades.

Eu, além de não acreditar em nada daquilo, ainda duvidava da capacidade de Santo Antônio de ser casamenteiro e arrumar companheiro para quem quer que fosse.

Mas daquela vez não quis ficar de fora da brincadeira e resolvi arriscar um pedido. Afinal não me custava nada solicitar ajuda para encontrar aquele homem que havia imaginado e com quem sonhava todas as noites. Então peguei a imagem do santo, embrulhei num papel, onde escrevi minha prece:

meu Santo Antônio querido
não preciso de um marido,
nem de alguém que me ame
só quero um namorado
que me aconchegue,
que me cubra, me abrace
que seja meu travesseiro
daqueles de corpo inteiro
pois isso já me basta!
e se for um moreno
com cara de safado
de fala mansa, arrastada
pele cor de jambo, tatuada
vou ficar deveras encantada
e pra sempre agradecida
por favor meu Santo
atenda ao meu pedido
Amém!

Depois, enquanto declamava em tom descrente e debochado a minha oração, coloquei tudo dentro de um pote de melado, hermeticamente fechado, pois sem ter como escapar, Santo Antônio ficaria enjoado com tanta doçura e, para se livrar, me arrumaria o namorado.

O tempo passou e até já havia me esquecido do tal pedido, mas o Santo não se esqueceu, nem do milagre solicitado, nem da minha heresia e deboche, nem da minha descrença em seus dotes, e me mandou a encomenda, mas tão enrolada, tão bem embrulhada, que até hoje não consegui abrir o pacote!

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Não espere... Faça acontecer!

Quem espera sempre alcança?

Seria simples se fosse assim, mas não é verdade. Quem apenas espera, nada consegue! Não nascemos com nosso destino traçado. Somos nós que escrevemos a nossa história, através das escolhas que fazemos e das decisões que tomamos durante nossa existência.

Não basta ficarmos com os olhos erguidos para o horizonte e observarmos a lenta descida do sol, dia após dia, sem nada mais em mente senão sonhar dias melhores que os anteriores. É necessário que lutemos pelo que achamos nos tornará mais felizes, caso contrário, quando acordarmos da letargia, corremos o risco de constatar que já não há chance de termos um futuro como gostaríamos, porque perdemos uma parte de nós e ficamos amputados da alegria de viver.

Portanto, não fiquem assistindo o “trem da vida” passar, corram e embarquem nele, antes que se contentem só em esperar por um novo amanhecer, por não terem mais nada que esperar...




Trem bão, uai!


Eulália nunca conheceu outra paisagem a não ser aquela da cidadezinha incrustada entre montanhas, situada no interior do interior das Minas Gerais.

Nascida e criada ali, pela avó, D.Quitéria, desde que ficara órfã de pais, aos 2 anos de idade, sonhava conhecer um mundo diferente que, talvez, existisse além das montanhas, mas não via como realizar seus sonhos.

D. Quitéria era mulher de grande religiosidade. Quando enviuvou, renunciou aos prazeres mundanos, os poucos que tinha, e se dedicou às coisas de Deus, às coisas do Padre, seja lá o que significasse isso, e à educação da neta, único parente que lhe restara.

A menina cresceu ouvindo a avó lhe dizer que moça direita devia andar na linha, não usar roupas que marcassem as formas, manter os cabelos presos, não usar maquiagem, andar de cabeça baixa e olhos, igualmente, baixos. Tudo isso para não despertar a cobiça dos homens. — Moça cobiçada, moça perdida —, dizia a avó.

D. Quitéria sentindo que seu tempo neste mundo estava se esgotando, tratou de arrumar marido para a neta que, afinal, iria completar 25 anos. E ninguém melhor que o Sr. Joaquim, proprietário do único armazém das redondezas, homem de posses, viúvo, pai de três filhos e que estava à procura de uma boa moça, que servisse de mãe para os seus pequenos. Combinaram tudo, sem que Eulália soubesse. Marcaram a data do casamento, contrataram festa, enfeites para a igreja.

Uma semana antes do enlace, a moça foi apresentada ao noivo, mas conforme lhe ensinara a avó, sequer levantou a cabeça para olhá-lo nos olhos.

Às vésperas das bodas, D. Quitéria achou por bem conversar com a neta sobre os deveres de uma boa esposa, mas se limitou a dizer que o marido iria procurá-la para fazer “certas coisas”, que ela tinha o dever de servi-lo, mas que se mantivesse quieta, não esboçasse nenhum movimento e nem emitisse som algum, ou o homem poderia pensar não ser ela digna de usar seu nome, tampouco de ser mãe de seus filhos.

E tudo aconteceu conforme previsto pela avó. Quatro anos de casamento, todos os domingos, religiosamente, às 21 horas, Joaquim se servia dela. Levantava sua camisola, deitava-se sobre ela e, por exatos cinco minutos, gemia, fungava, até que se derramava dentro dela. Depois, virava pro lado e dormia, roncando como um porco.

Ela sentia nojo de tudo aquilo, mas não se queixava e nunca se rebelava, apenas cumpria sua obrigação de esposa devotada, como havia jurado ao padre.

Filhos seus não teve, seu útero recusou, por duas vezes, a manter os frutos de todo aquele desamor. Não tendo os seus, cuidava dos filhos do marido, dele mesmo e da casa. No mais, todo santo dia ia à missa das 6 da manhã, para rezar pela alma da avó, que já tinha ido desta para uma melhor.

O tempo passou e ela permaneceu andando, como sempre, na linha.

Às vezes se despia em frente ao espelho, soltava os cabelos, se olhava e gostava do que via, mas logo se lembrava da avó dizendo que por trás de cada espelho havia um demônio escondido para espiar as moças que se desnudavam perante ele. Cobria-se rapidamente e tratava de esquecer que ainda era jovem e bonita.

Mas naquela noite, de calor insuportável, com o homem roncando ao seu lado, sentiu uma vontade enorme de experimentar algum prazer nesta vida. Vestiu-se com a melhor roupa que tinha, passou papel crepom vermelho na boca, para lhe dar um pouco de cor, e saiu pela noite a caminho da estação ferroviária, na esperança que alguém a encontrasse e a fizesse se sentir desejada, amada.

Era a chance que o destino gozador, irônico e manipulador, esperava para intervir em sua vida.

E foi assim que, na única hora em que resolveu se desviar da linha, um trem desgovernado a invadiu pelas costas, pela frente, virando-a de ponta cabeça.

E toda a cidadezinha acordou com o grito da moça:

- Nos'sinhora! Que trem bão por demais da conta, Uai!

Foi a última noite de Eulália na vida de antes...

e a primeira noite de uma outra vida bem mais prazerosa!


(Nós, mineiros, costumamos chamar a tudo de "trem",
quer seja o próprio, quer seja outra coisa qualquer).

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